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Memórias do Front: B-17 Liberty Bell: A saga de um Bombardeiro

O objetivo deste blog é resgatar, através de artigos, histórias de pessoas que se envolveram no maior conflito da História - A Segunda Guerra Mundial - e que permaneceram anônimas ao longo destes 63 anos. O passo inicial de todo artigo publicado é um item de minha coleção, sobretudo do acervo iconográfico, a qual mantenho em pesquisa e atualização. Os textos originados são inéditos bem como a pesquisa que empreendo sobre cada imagem para elucidar a participação destes indivíduos na Guerra.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

B-17 Liberty Bell: A saga de um Bombardeiro

O B-17 com número de série 42-97849 é entregue a 8ª Força Aérea Americana com base na Inglaterra em 24 de maio de 1944. Imediatamente o avião é deslocado para o 390º Grupo de Bombardeio Pesado, com base nas cercanias da cidade inglesa de Framlingham. O 390º possuía quatro esquadrões: 568º, 569º, 570º e o 571º. O grupo tornou-se operacional em 12 de agosto de 1943 e voou 301 missões até o final da guerra. Entre todos os aviões que fizeram parte desta história está o Liberty Belle, com 64 missões de bombardeio, sendo que 16 delas foram comandadas pelo piloto Clifton H. Brown. O Belle foi imediatamente alocado junto ao 570ª Esquadrão de Bombardeio Pesado.

A primeira missão do Belle foi em dia 5 de junho de 1944. Foi tripulado pelo piloto Ten. Henry H. Dayton e o alvo era a região de Boulogne, na França. Não há dúvidas que esta missão fazia parte do plano aliado de invasão a Europa através das praias francesas da Normandia. Não é difícil imaginar a concentração de tropas por todos os portos da Inglaterra enquanto o Belle partia rumo a sua missão. É a partir de sua segunda missão, em 7 de junho de 1944, que o Ten. Brown irá comandar o Belle até o mês de setembro.[1]


Muitos homens passaram pelo Belle até fevereiro de 1945, quando é afastado do combate; mas foi através do Ten. Brown que sua imagem se imortalizou na fotografia que ilustra este artigo. Tirada em 13 de outubro de 1944 ela mostra o Ten. Brown e parte de sua tripulação na frente do Belle.[2] Por esta época, Brown já havia cumprido 33 missões de combate sem sofrer nenhum arranhão e havia sido dispensado de combater. Sua última missão foi em 2 de outubro de 44 sobre Kessel, na Alemanha, mas não no comando do Belle. Ao lado, nose art do Liberty Belle.

Provavelmente sua missão mais apavorante, aquela que ele guardou na memória o resto da vida, foi a realizada em 9 de setembro de 1944, no comando do Liberty Belle. O alvo deste dia era Dusseldorf, na Alemanha. O alvo era uma fábrica de pequenas armas e acessórios de tanques que distava aproximadamente 5 quilômetros a leste da cidade e empregava 35 mil trabalhadores. Ele ficava em um setor da Alemanha apelidado pelos tripulantes de bombardeio de “Happy Flak Valley” que poderia ser traduzido literalmente como “O Feliz Vale do Flak”. A brincadeira escondia uma pavorosa expectativa: significava que estavam adentrando o setor mais bem guardado da Alemanha, onde uma barragem de artilharia anti-áerea poderia ser composta por mais de 200 canhões.[3]

No briefing daquele dia, 9 de setembro, tudo ocorrera bem. Os pilotos receberam as informações necessárias para a missão: os 12 aviões do 570º esquadrão voariam em na altitude mais baixa, a 25 mil pés. O restante dos esquadrões voaria a 26 mil pés.

A 25 mil pés, por uma razão física, o dano causado pelo FLAK era o mais mortífero possível: existia uma média de 50% de chance de se acertar um avião com quatro baterias em disparo seqüencial. A 28 mil pés essa estatística reduzia ao padrão normal de acerto. E foi um tiro destes, a 25 mil pés, que definiu o destino de 6 bombardeiros B-17 naquele dia.

As 10:33 inicia-se o bombardeio.[4] O B-17 Bundles of Trouble solta suas bombas do compartimento. Inesperadamente, uma das bombas é atingida pelo FLAK e o avião, que carregava cerca de 12 bombas de 500 libras explodiu no ar. Sua explosão foi de tão modo horripilante e grandiosa que atingiu imediatamente 9 aviões próximos que voavam na formação asa com asa. Destes nove aviões, 6 caíram sobre a área do alvo. Outros três foram bastante danificados e conseguiram retornar, de alguma forma. Dos 12 aviões do 570º que decolaram naquela madrugada, apenas 3 não haviam sido danificados.

O piloto do B-17 G.I Wonder, Robert L. Longardner, assim resumiu aquele dia: “Foi terrível. Eu não quero entrar em detalhes porque é muito horrível recontar [e relembrar] novamente. Existiam muitos amigos meus naquelas tripulações. (...) Eu nunca fiquei tão chocado em minha vida, perdendo 55 amigos de uma só vez, era mais do que eu podia suportar. Eu fiquei em transe, chocado por conta da perda e só pensei naquilo muito tempo depois. (...) só com a graça de Deus poderia completar o restante das missões”.[5]

Os três aviões avariados prosseguiram diferentes destinos: um deles, o B-17 Bad Egg, com apenas um motor, conseguiu chegar até Paris duas horas após o incidente; o segundo conseguiu pousar na Bélgica e o terceiro, o B-17 G.I Wonder conseguiu retornar à base com um motor avariado.

O Liberty Belle foi um dos três bombardeiros que não sofreu com aquela explosão. Mas isto não salvou seus tripulantes: o navegador James L. Decker, em sua 33ª e última missão foi ferido por sharpnel, estilhaços das bombas do 88.

Os aviões que caíram naquele dia foram os seguintes: O B-17 número de série 43-37804 com 7 mortos e 2 tripulantes feitos prisioneiros de guerra; O B-17 número de série 42-102594 com 4 mortos e 5 prisioneiros de guerra; o B-17 Avenger II número de série 42-97130, com todos os seus nove tripulantes feitos prisioneiros de guerra; O B-17 Bundles of Trouble, pivô da tragédia quando foi atingido por FLAK com o compartimento de bombas aberto, com todos os seus tripulantes mortos; O B-17 Baby Buggy número de série 42-31854 com 7 mortos e 2 prisioneiros de guerra; [6]


Após essa tragédia, o Belle continuou ativo até fevereiro de 1945, quando foi deslocado do teatro Europeu. Foi vendido como sucata para uma empresa de beneficiamento em junho de 1945 e revendido em 1947 para a empresa de motores Pratt & Whitney. Lá, o Liberty Belle tornou-se um avião experimental, função que desenvolveu até 1967. De B-17 sobrou apenas a lataria. Ele havia sido totalmente modificado em seu interior e por esta época andava com 5 motores, sendo que o mais potente estava instalado no nariz do avião.


Pouco depois o Belle foi então doado para a Associação de História Aeronáutica do estado americano de Connecticut, onde sofreu grande destruição durante a passagem de um tornado em 1979. O Liberty Belle passou por quase 15 anos de restauração e no mês de julho de 2008 completou um tour pela Europa. Hoje é possível agendar uma viagem e curtir, durante 30 minutos, a emoção de voar em um “veterano” de guerra. Ao lado, imagem do Belle completamente restaurado e pronto para voar.


The Liberty Belle Foundation: http://www.libertyfoundation.org/


[1] Informações retiradas do site oficial do grupo 390º: http://www.390th.org/
[2] National Archives USA - NARA. Cópia na coleção de Fernanda Nascimento. Imagem inédita.
[3] Depoimento do piloto Robert L. Longardner piloto do avião G.I Wonder, disponível em http://www.390th.org/warstories/Lamentations.htm
[4] Missing Air Crew Report MACR 8915, Publication Number: M1380, National Archives, USA.
[5] Depoimento do piloto Robert L. Longardner piloto do avião G.I Wonder, disponível em http://www.390th.org/warstories/Lamentations.htm
[6] Missing Air Crew Report MACR 8911, MACR 8916, MACR 8913, MACR 8915, MACR 8912. Publication Number: M1380, National Archives, USA.


VEJA TAMBÉM


>> Rosser I. Bodycomb – Piloto de combate da 15ª Força Aérea.
>> FIGHTIN BITIN: um esquadrão da 8ª Força Aérea Americana
>> A Infantaria na Fortaleza de Brest: A primeira batalha da ofensiva de 41.

3 comentários:

Anônimo disse...

parabens pelo blog!!!
to lendo aqui devagarinho e to gostando bastante. keep goin!!!!

Marcos disse...

Parabens Fernanda estou adimirado com o seu trabalho, eu tambem gosto de documentarios e histórias da 2° guerra mundial e sobre o papel do Brasil nesse conflito que marcou para sempre a humanidade,um grande abraço.

Anônimo disse...

Ronaldo

Parabens, tbm sou apaixonado pela historia da WWII e os B-17 são os meus favoritos.