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Memórias do Front: Março 2008

O objetivo deste blog é resgatar, através de artigos, histórias de pessoas que se envolveram no maior conflito da História - A Segunda Guerra Mundial - e que permaneceram anônimas ao longo destes 63 anos. O passo inicial de todo artigo publicado é um item de minha coleção, sobretudo do acervo iconográfico, a qual mantenho em pesquisa e atualização. Os textos originados são inéditos bem como a pesquisa que empreendo sobre cada imagem para elucidar a participação destes indivíduos na Guerra.

quarta-feira, 12 de março de 2008

João Avelino Santos: Um soldado na FEB.

Em 22 de setembro de 1944 o soldado João Avelino dos Santos embarca no porto do Rio de Janeiro no navio transporte General Mann em direção à Itália. João, como outros 25 mil brasileiros, era integrante do 1º Regimento de Infantaria – Regimento Sampaio - da Força Expedicionária Brasileira , formada por três regimentos de infantaria e tropas de apoio, que assim partia para lutar a II Guerra Mundial nos campos da Europa.

Antes de João, um grupo de 5 mil homens já havia partido em julho de 44. Estes já haviam participado de seu batismo de fogo quando João deixou a baía de Guanabara: comandado pelo Gen. Zenóbio da Costa em 16 de setembro tropas brasileiras tomam as localidades de Massarosa, Borrano e Quieza, que se achavam em poder dos alemães.

Mas o engajamento de João começou muito antes, provavelmente pouco depois do final de agosto de 1942 quando o Brasil declara guerra ao Eixo – Itália, Japão e Alemanha – por ordem do presidente Getúlio Vargas. A decisão foi conseqüência de uma série de atentados a embarcações de bandeira brasileira tanto na costa de nosso país como no Atlântico, perpetrados pela Kriegsmarine – a marinha de guerra alemã – através de submarinos. Estes atentados se iniciam em fevereiro de 1942, poucos dias após o Brasil declarar o corte de relações diplomáticas com os países do Eixo.

Este episódio tem uma ligação muito estreita com outro, que ocorre em dezembro de 1941: o ataque japonês a Pearl Harbor e a declaração de guerra dos EUA ao Japão e por conseqüência à Alemanha. Os EUA desde o início da guerra tinham a consciência da necessidade de se assegurar a segurança das Américas a fim de se garantir a segurança de seu próprio território. O pensamento estratégico era muito simples: as Américas eram consideradas áreas de influencia cultural e comercial estadunidense, além de oferecerem pontos estratégicos de defesa ao hemisfério norte, como foi o caso do Nordeste brasileiro.

Assim, após conferência entre os líderes dos países americanos realizada no Rio de Janeiro, decide-se pelo corte de relações com o Eixo. E é assim que a guerra chega ao quintal do Brasil: iniciando-se em fevereiro e sem previsão de término, os submarinos alemães, estacionados na costa da França, afundam navios mercantes brasileiros. A gota d’água se dá em agosto de 42, quando navios com passageiros civis são afundados, causando grande revolta na população brasileira.

João Avelino dos Santos, jovem brasileiro, assiste a tudo através dos rádios e jornais. E sem imaginar que pudesse pisar o solo italiano ao brado dos gritos corajosos de seu sargento sob fogo da poderosa Lurdinha, é chamado a servir ao seu país.

E a guerra ardia em ambos os teatros de operações. Em setembro de 1944 os aliados já haviam libertado Paris e logo o Terceiro Exército Americano de Patton deteria seu avanço devido a falta de suprimentos. No dia em que o soldado João deixa o porto do Rio de Janeiro em direção à Nápoles, as forças aliadas estão tentando desesperadamente salvar do fracasso o plano de invasão aerotransportada da Holanda. Os alemães emitiam um aviso: não está derrotado quem ainda guerreia.

Na Itália, a situação era similar: entrincheirados nos vales do montanhoso território da península, os alemães infringiam pesadas baixas ao Exército Americano. Ao tardar da guerra, as baixas em solo italiano eram proporcionalmente maiores do que no território francês. A pressão imposta pela Wehrmacht foi tanta, que o Exército Americano tratou de montar e treinar uma divisão especializada em combate de montanha para enfrentar o desafio de furar o bloqueio alemão.

João e seus companheiros desembarcaram dia 6 de outubro no porto de Nápoles. Da primeira impressão provavelmente nunca se esqueceram. A ela, adicionariam tantas outras pavorosas e alegres, imagens que a guerra traz e que ninguém nunca viu a não ser na própria guerra. Nápoles não era mais uma frondosa e bela cidade italiana. O porto estava abarrotado, quase que entupido de tantos destroços de navios e aviões de guerra. Toneladas de aço retorcido se encontravam sob e sobre a superfície da água, tornando tortuosa a delicada operação de se atracar um grande navio.

A cidade era só escombros que foram cuidadosamente criados por meses de intensos bombardeios, ataques aéreos e invasões de tropas estrangeiras; ora inimigos, ora aliados. A sensação não podia ser mais desoladora: centenas de pessoas cruzavam as ruas, roupas em farrapos, a procura de comida ou qualquer item que lhes ajudasse a sobreviver em um território dominado pelo Deus da guerra. A pobreza foi algo que chocou até os mais pobres soldados brasileiros.[1]

Dali, o grupo é levado a campos de reunião e treinamento. E lá ficarão por quase dois meses a espera de treinamento e material. A situação da FEB era de alguma forma delicada: sem material americano disponível no Brasil, todos os três regimentos tiveram que se adaptar ao chegarem na Itália, passando por cursos e instrução antes de entrar, definitivamente, em ação. A situação do 2º e 3º escalões, que chegaram à Itália em 6 de outubro, foi bastante delicada. Parte do grupo só entrou em ação em 21 de novembro, ao substituir um batalhão do 6º RI nas proximidades de Monte Castelo. Poucos dias depois, seriam atacados pelos alemães e estes brasileiros experimentariam, pela primeira vez, o gosto de sangue e pólvora.

Dali em diante, João guardaria na memória não só as cenas de combate, mas as terríveis sensações do inverno europeu. Aquele inverno, que foi um dos mais frios, como se o Deus da guerra interferisse no tempo e castigasse os infantes das nações em guerra. No sopé de Monte Castelo, os batalhões do 1º RI passariam o inverno cuidando e monitorando as ações alemãs, esperando para dar início ao ataque final, aquele que varreria a alma do Sampaio, já castigado por tantas investidas e baixas infrutíferas.


Medalha Sangue do Brasil - FEB

E depois de passar muitas noites sob o frio intenso e muitos dias sob o desolador céu de inverno e sob o calor da artilharia do tedesco, o grande ataque a cota 977 é marcado.

Em 8 de fevereiro o Gen. Crittenberger convocou todos os comandantes de divisões para uma reunião urgente. Foi anunciado que na segunda quinzena de fevereiro seria realizado pelo IV Corpo uma ofensiva local, que seria executada pela 10º divisão americana de montanha e pelo 1º DIE, com apoio aéreo e artilharia. A operação recebeu o nome de “Plano Encore” com o objetivo de rechaçar o inimigo instalado entre os vales do Panaro e Reno, que daria ao comando aliado a posse de observatórios e pontos vitais para a ofensiva contra a Bolonha. Em 16 de fevereiro os objetivos estavam claros e assim apresentados: a 10º divisão de montanha conquistaria Monte Belvedere e Gorgolesco, progredindo segundo o divisor até linha Capella di Ronchidos – Mazzancana; a partir deste momento a divisão brasileira atacaria Monte Castello, em concordância com a ação da 10º divisão sobre Monte della Toraccia.

E João provavelmente participa deste combate, que entrará para os anais da história da campanha da FEB na Itália. Mas ele não parou por ai: o regimento Sampaio consolida sua presença nos Apeninos após a conquista de La Serra.

Em março de 45 João tira esta foto em alguma cidadezinha italiana no vale do rio Pó e a dedica a sua irmã Fontenelle. Seu semblante parece transmitir as agruras da guerra ao qual foi submetido. A pesada roupa nos faz pensar que, mesmo no inicio da primavera, o frio ainda assolava os brasileiros.[2]

O 1º Regimento ao qual o soldado João estava ligado ainda participa ativamente da campanha em março e abril, inclusive o ataque a cidade de Montese. A guerra começava a anunciar o seu final: o avanço começou a se fazer rápido por vilarejos e cidadezinhas já abandonadas pelos alemães. A libertação de Bolonha pelos americanos deu o tom de vitória aos brasileiros. Os alemães passaram a ser perseguidos e os campos de prisioneiros aumentavam dia-a-dia.

Mas a estada na Itália se prolongaria até agosto de 1945, quando o Sampaio embarca de volta para o Brasil. João desembarca em 22 de agosto no Rio de Janeiro, desfilando majestosamente pelas ruas da cidade e sendo recebido, quem sabe, por seus entes queridos.


[1] Depoimentos sobre Nápoles podem ser encontrados em diversos relatos de febianos. Entre eles, PISKE, Ferdinando. Anotações do Front Italiano e SOARES, Leonércio. Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira
[2] Foto do arquivo pessoal de Fernanda Nascimento. Imagem Inédita.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Raid sobre Schweinfurt: A saga da tripulação do Ten. Wheeler – PARTE 2

Á direita: B-17 Our Gang pilotado pelo Ten. Wheeler e sua tripulação na missão No. 84 sobre Schweinfurt.[1]

A importância estratégica de Schweinfurt foi observada já em 1942 pelos aliados. Só as fábricas desta cidade eram responsáveis por quase 50% da produção de esferas de rolamento da Alemanha, peça essencial aos equipamentos da guerra moderna. O restante da produção de esferas de rolamento se diversificava através de outras fábricas espalhadas por território alemão e pela importação, sobretudo da Suécia.

No inicio de agosto de 1943 o comando aliado passou a planejar uma série de bombardeios estratégicos às fábricas de Bf-109 e concebeu um ataque planejado entre a 8ª Força Aérea, baseada na Inglaterra e a 9ª Força Aérea, baseada na Líbia, para o dia 13 de agosto. Por conta do mau tempo a 8ª cancelou a sua participação nesta missão conjunta e passou a planejar um ataque a região industrial de Regensburg para saturar as defesas aéreas alemãs e desafiar o poderio aéreo da Luftwaffe. Este ataque incluía ainda o que deveria ser um golpe duro e fatal a industria de esferas de rolamentos da Alemanha através do bombardeio de Schweinfurt.

O dia marcado foi 17 de agosto para comemorar o aniversário do primeiro raid aéreo sobre a Alemanha feito pela 8ª Força Aérea.

Schweinfurt foi uma missão cuidadosamente planejada que teria estágios inéditos de ataque além de utilizar uma poderosa força de bombardeiros. Com duração calculada em 11 horas, a missão se dividiria em três momentos: o bombardeio de Regensburg, o bombardeio de Schweinfurt e manobras divisionárias com a intenção de diminuir o poder de ataque da Luftwaffe à formação de bombardeiros em direção aos alvos específicos. Estes ataques divisionários ocorreriam no mesmo momento que os ataques as duas fábricas e se dariam ao longo da costa da França e da Holanda, atacando aeródromos da Luftwaffe. Dada a falta de aparelhos, estas manobras seriam executadas por bombardeiros médios da RAF.

Além disso, os bombardeiros escalados para atacar Regensburg não retornariam para a Inglaterra: em uma manobra inédita, eles continuariam sua viagem até a África, descendo em aeródromos da 9ª Força Aérea. Com esta manobra, o comando esperava diminuir o número de ataques às Fortalezas durante o caminho de volta, que normalmente era seguido de perto pelos caças alemães.

Na noite anterior ao ataque a tripulação do Ten. Wheeler tomou conhecimento de que estava escalada para a missão do dia seguinte, 17 de agosto. Por volta das três da manhã a tripulação foi desperta, para que pudesse iniciar os procedimentos de preparação da missão.

Durante o Briefing, os aviadores tomaram conhecimento do alvo a ser atacado e dos planos que o envolviam: planejada para sair entre as 6:30 e as 8:00 da manhã, a missão teria uma janela de 90 minutos para que o mau tempo não atrasasse sua partida. Sendo assim, mesmo que um grupamento partisse as 6:30 e outro as 8:00 o alvo seria atingido no horário planejado.

Mas para os grupos que deveriam atacar Schweinfurt nem a janela foi suficiente para conter o mau tempo. A espessa neblina que cobria os aeródromos desde a madrugada demorou bastante para se dissipar. Após se dirigirem aos aviões, os homens ficaram ao redor, aguardando as ordens de partida. Estas vieram com um atraso de quase três horas, quando finalmente a neblina se dissipou um pouco e permitiu que os 230 B-17 destacados para Schweinfurt decolassem, por volta da 10 horas da manhã.

O atraso custaria caro aos planejadores da missão e sobretudo aos executantes: ele possibilitou que os caças da Luftwaffe fossem rearmados e reabastecidos, voltando para o ar a tempo de atacar a leva de Schweinfurt.

A tripulação do Ten. Wheeler deveria estar cansada: em 12 de agosto realizaram missão sobre GELSENKIRCHEN, norte da Alemanha, enfrentando FLAK pesado e possivelmente aviões do Esquadrão Herman Goering, considerado de elite. Novamente em 15 de agosto a tripulação voa até VLISSEKGEN, na Holanda onde efetua um péssimo bombardeio devido às más condições. No dia seguinte, 16 de agosto, a tripulação causa danos ao aeródromo de LeBOURGET, na França, sendo escoltada por P-47 e enfrentando pouca oposição inimiga.[2] O cansaço, o stress e o baixo moral, dada as altas baixas do esquadrão em agosto, eram um veneno a qualquer tripulação.

Além disso, o relatório diário do 401º Esquadrão indica que entre 2 e 9 de agosto a tripulação de Wheeler recebeu 7 dias de folga, sendo afastados de Bassingbourn. Durante o ano de 1943 o atendimento médico dos esquadrões por toda a Inglaterra afastou milhares de tripulações de bombardeiro por alguns dias da tormentosa rotina das bases para centros de repouso da AAF.

Já na manhã de 17 de agosto as rádio-escutas da Luftwaffe captaram grande movimentação nos aeródromos da 8ª Força Aérea.[3] Assim, imaginaram que o sul ou o centro da Alemanha seriam atacados, ordenando prontidão aos esquadrões responsáveis pela defesa da França, Dinamarca, Noruega e da própria Alemanha. Por conta disso, ainda sobre o mar as Fortalezas começaram a receber a visita de uma centena de caças alemães. Ainda sob escolta, poucas Fortalezas foram perdidas.

Esta não era a primeira vez que Wheeler e sua tripulação entravam na Alemanha e eram atacados por caças. Mas desta vez a penetração era muito mais profunda e causava assombro até no mais experiente dos aviadores.

Em 21 de maio, em missão a WILHELMSHAVEN, na Alemanha, o B-17 de Wheeler, The Eager Beaver, era o líder do esquadrão. Após lutar ferozmente com vários caças, Wheeler recebe a notícia do bombardeador que estão sobre o alvo e as bombas são jogadas. Ouvir “Bombs Away” era tranqüilizador por significar que a primeira parte da missão estava completa; a segunda era retornar em segurança para a base. E este foi um desafio.

Um foguete lançado por um caça a longa distância atingiu em cheio o cockpit causando sérios ferimentos ao co-piloto, naquela ocasião o Segundo Tenente Arlynn E. Weieneth. Quase que imediatamente o nariz do avião também sofre uma explosão, mas sem causar danos ao navegador e ao bombardeador. Uma explosão de FLAK causa vários danos à fuselagem do Beaver e os motores 3 e 4 param de funcionar. Saindo da formação, a tripulação lutou bravamente até afastar os caças inimigos e chegar em segurança à Inglaterra.[4]

Durante o verão de 1943 a Força Aérea Americana promoveu uma série de ataques intensificados sobre solo alemão. Para alguns aviadores, este verão ficou conhecido como “O Verão Sangrento”. Estes ataques reforçaram ainda mais o poder combativo da Luftwaffe. Para a defesa da Alemanha, Dinamarca e o sul da Noruega estimava-se a existência de 1045 caças alemães ao final de 1943. Para tanto, novas armas e táticas de aproximação e ataque à formação de bombardeiros foram inventadas. Utilizando-se morteiros do exército com espoleta de retardo, os alemães lançaram foguetes de 21mm e ogivas de 37 quilos que poderiam ser lançados de Me-110 adaptados a cerca de 1000m de distância. Mesmo acertando poucos alvos por dificuldades técnicas, a arma possuía seu mérito.[5]

Outra tática, utilizando aviões alemães também bombardeiros, principalmente Ju-88, consistia em elevar estes aviões a altitude acima da formação de Fortalezas e lançar as bombas. Armadas com espoleta de retardo, eram normalmente programadas para explodir ao redor de 1000m. Alguns pilotos alemães relatam que, devido a formação de ataque dos bombardeiros americanos, em caso de sucesso uma bomba de 250 quilos lançada por este método poderia dar conta de 2 ou 3 aviões simultaneamente. Assombroso, por certo, esta técnica estava em uso naquele 17 de agosto.

Por volta da 13:30 o grupo chegou à costa da Noruega, local onde efetuaria a penetração para a Alemanha. Nesse trecho o grupo já estava sem a proteção dos caças, que só poderiam ir até Eupen, cidade na Bélgica a cerca de 15km da fronteira alemã. Os caças alemães continuavam sua forte investida as Fortalezas. Os artilheiros de Wheeler já traziam algumas vitórias na manga: na missão de 21 de maio o Sargento Scurlock reivindicou a queda de um FW 190, bem como o bombardeador, ten. Woodward. Também em 17 de julho o Sargento McBrigde reivindicou a queda de um FW 190.[6] Mas naquele 17 de agosto o ataque foi demais.

Na altitude de 21 mil pés, por volta das 14:10, o B-17 Our Gang, pilotado pelo Ten. Wheeler enfrentava sério ataque de caças, quando os motores 1 e 2 começaram a pegar fogo. Piloto e co-piloto, para fugir dos caças e tentar apagar o fogo dos motores, começaram a descer e se desligaram da formação de ataque.[7] O B-17 começava a perder o controle e Wheeler tentava ao máximo mantê-lo seguro. Deve-se lembrar que o bombardeio ainda não havia ocorrido e o B-17 estava super carregado de bombas e combustível. Logo, mantê-lo alinhado e lutar contra dois motores em fogo era quase impossível. Wheeler teve que tomar uma decisão séria em pouquíssimos segundos: deveria mandar todos os tripulantes saltar do avião enquanto tentava manter o controle da fortaleza? Ou ele mesmo, após todos os tripulantes saltarem, deveria saltar? De acordo com o relatório de perda de tripulação feito pela Força Área entre 6 ou 8 pára-quedas foram vistos saindo do B-17 pilotado por Wheeler.

Abaixo: Mapa Anexado ao Relatório de Perda de tripulação do Ten. Wheeler.

A missão prossegue. Às 14:36 os alemães já sabiam que o alvo era Schweinfurt, cerca de 30 minutos antes dos bombardeiros lá chegarem. As perdas, nesse momento, já tinham sido tão altas que muitos imaginaram que a força de ataque seria aniquilada antes de lá chegar. Aproximadamente 22 aviões já haviam sido abatidos.

A 5 milhas do alvo se inicia o pesado FLAK. Ás 14:57 os primeiros aviões da formação soltam as bombas, seguidos pelo resto da força. Bombs away siginificava reduzir em até 3 toneladas o peso do avião e quando o compartimento era aberto e as bombas soltas, sentia-se um solovanco no avião. Durante 24 minutos Schweinfurt foi bombardeada, recebendo uma carga de 424 toneladas de bombas, sendo que 125 toneladas eram de bombas incendiárias.

O retorno do bombardeio significou a perda de mais 14 bombardeiros. Enquanto Schweinfurt era bombardeada, os caças da Luftwaffe rearmaram e reabasteceram para voltar aos céus e atacar o grupo na volta.

A missão foi considerada desastrosa. Apenas para Schweinfurt 36 bombardeiros foram perdidos. Juntando-se a força de Regensburg este número subia a 60. A técnica de bombardear a Alemanha sem escolta foi posta em dúvida a partir de 17 de agosto de 1943. Enquanto não se desenvolvesse um caça que pudesse acompanhar as formações de Fortalezas em penetração profunda à Alemanha, o alto índice de baixas em missões deste tipo deveria prevalecer.

Os danos causados em Schweinfurt na investida de 17 de agosto foram considerados rigorosos, mesmo para Albert Speer, ministro da produção da Alemanha. A produção de esferas de rolamento sofreu queda de cerca de 38% da capacidade das indústrias de Schweinfurt. Mas em 4 semanas os danos já haviam sido reparados e as fábricas voltavam, aos poucos, a força total.

Speer, no pós guerra, lembrou que se os ataques tivessem sido mais regulares a Schweinfurt, talvez a produção estivesse realmente ameaçada. Mas depois de perder quase 600 homens altamente treinados, além de diversos aviões, a 8ª Força Aérea americana enfrentava um sério dilema entre seus comandantes: valeria mesmo a pena a penetração na Alemanha sem escolta?

Alguns meses depois o 401º Esquadrão pode rastrear alguns dos seus homens nos campos de prisioneiros da Luftwaffe na Alemanha. Entre eles, estava toda a tripulação do Ten. Wheeler.

Ao caírem em território ocupado, a tripulação logo foi recolhida por patrulhas alemãs que os despacharam a campos de prisioneiros. Os próximos 22 meses da guerra seriam uma provação tão grande aos homens de Wheeler quanto as próprias missões de bombardeio sobre território inimigo. Sujeitos a maus tratos, a depressão e a sensação de impotência, estes homens assistiriam ainda muitas formações de bombardeios passarem por sobre suas cabeças em direção ao coração da Alemanha e ouviriam, através de rádios proibidos, as notícias da guerra através dos noticiários da BBC.

As penetrações em território alemão prosseguiram, mas só se tornaram efetivas a partir de janeiro de 1944, quando os primeiros caças P-51 começam a chegar à Inglaterra. Com raio de ação quase dobrado, estes caças podiam guarnecer as Fortalezas e os Liberators em incursões sobre território alemão, realizando assim o sonho dos estrategistas do bombardeio estratégico.



[1] National Archives USA - NARA. Cópia na coleção de Fernanda Nascimento. Imagem inédita
[2] Relatórios Diários do 401° Esquadrão, ano de 1943, preparados pelo Capitão F.G. Davison, transcritos por Merle Shoffel e disponíveis em http://www.91stbombgroup.com/Dailies/401st1943.
[3] BEKKER, Cajus. A História da Luftwaffe. Bruguera: Rio de Janeiro, 1971. p. 689.
[4] GETZ, Lowell L. Mary Ruth" Memories of Mobile...We Still Remember. Stories From the 91st Bomb Group. Disponível em http://www.91stbombgroup.com/toc.html
[5] PRICE, Alfred. Luftwaffe. A Arma Aérea Alemã. Rennes. Rio de Janeiro, 1974. p. 123
[6] Relatórios Diários do 401° Esquadrão, ano de 1943, preparados pelo Capitão F.G. Davison, transcritos por Merle Shoffel e disponíveis em http://www.91stbombgroup.com/Dailies/401st1943.
[7] Missing Air Crew Report MACR 281, Publication Number: M1380, National Archives, USA.