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Memórias do Front: Lil Satan: O destino de uma Fortaleza Voadora.

O objetivo deste blog é resgatar, através de artigos, histórias de pessoas que se envolveram no maior conflito da História - A Segunda Guerra Mundial - e que permaneceram anônimas ao longo destes 63 anos. O passo inicial de todo artigo publicado é um item de minha coleção, sobretudo do acervo iconográfico, a qual mantenho em pesquisa e atualização. Os textos originados são inéditos bem como a pesquisa que empreendo sobre cada imagem para elucidar a participação destes indivíduos na Guerra.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Lil Satan: O destino de uma Fortaleza Voadora.

No dia 28 de junho de 1944 pilotos e mecânicos da RAF olhavam abismados o nariz do B-17 na foto ao lado. De costas, em primeiro plano, o piloto da Fortaleza avariada explica como tudo aconteceu. Os ouvintes não pareciam acreditar como esta fortaleza pode retornar de uma missão sem parte do nariz, atravessar o Canal e aterrissar, em pouso perfeito, na primeira base da Real Força Aérea Britânica (RAF) que a tripulação localizou no mapa de vôo. Se não bastasse, além de perder o nariz por conta de um bom tiro de um canhão antiaéreo 88, a fuselagem da fortaleza apresentava vários furos menores, provavelmente resultado dos canhões antiaéreos de 20mm.[1]

Naquele verão de 1944 as missões da 8ª Força Aérea, baseada na Inglaterra, haviam aumentado sensivelmente. Os aliados haviam finalmente atravessado o Canal e invadido a França por onde os alemães menos imaginavam: a Normandia. Como preparação à invasão e as ações dos dias subseqüentes, as tripulações de bombardeiros sofreram grandes baixas devido ao alto índice de missões perpetradas naquele verão. Mais ainda: agora as dezenas de aviadores que caiam em território inimigo diariamente e tentavam fugir, antes de serem prisioneiros de guerra, não era apenas de bombardeiros. Com o advento do P-51 e a possibilidade de escolta até a Alemanha tanto na ida quanto na volta das missões de bombardeios, agora também pilotos de caça americanos caiam dia após dia na Alemanha e territórios ocupados.

Também a Luftwaffe concentrava suas forças, agora, muito mais na ação da artilharia antiaérea do que em seus próprios caças: com as fábricas e os aeródromos constantemente bombardeados, estava difícil manter uma superioridade nos céus. Além disso, muitos grupos de combate ainda estavam alocados no leste, na vã tentativa de barrar o avanço das tropas russas.

O fato é que em 25 de junho de 1944 a tripulação do Ten. Karl E. Becker se preparava para mais uma missão. O alvo seria a ponte da região de Coulanges Sur Yonne, na França, setor bastante defendido pelos alemães. Na Inglaterra o tempo estava mal-humorado, como de costume, mas a previsão do tempo garantia uma visibilidade de 50% a 75% sobre o alvo. A missão não deveria ser longa – a previsão era de 6 horas para completá-la.

A tripualação do Ten. Becker voaria na aeronave de número 42-97890 conhecida como "Lil Satan". Os tripulantes daquela missão seriam os tenentes Patrick D. Rawls, Robert W. Evans e Arthur M. Maatta respectivamente o co-piloto, o navegador e o bombardeador da fortaleza; os demais componentes eram os sargentos Robert A. Smith George M Brittain, James A. Lalorde, Francis J. Phillips e Joseph Simoncini. O Lil Satan levaria ainda como observador o Major Alexander B. Andrews que aparece na janela do co-piloto na imagem abaixo, observando o devastador efeito da artilharia antiaérea e se colocando na pele do Ten. Rawls, o co-piloto que estava naquela cadeira no dia 25 de junho.[2]





O Satan não havia voado muitas missões até ali: havia sido destacado ao 379º Grupo de Bombardeiro Pesado em 16 e junho de 1944 e realizaria um total de 21 missões até se perder em ação em setembro de 44.[3]

Era a última missão que o piloto, Ten. Becker iria realizar. Ele já havia pilotado 34 vezes um B-17 sob fogo inimigo e aquela seria sua primeira vez no Lil Satan. Desde sua primeira missão, em 11 de abril de 1944, Becker havia pilotado junto com Rawls, Phillps e Simoncini. Os outros membros do grupo já haviam voado com Becker outras vezes também. Tanto Maatta quanto Rawls, os outros oficiais a bordo do Lil Satan, já haviam realizado mais de 30 missões de bombardeio. Naquele ano a Força Aérea Americana havia subido a contagem de missões para 35 e não mais 25, como fora em 1943. Rawls voava sua 33ª missão e voaria ainda mais 3 antes de ser liberado.

Após bombardear o alvo com sucesso, o Lil Satan foi atingido pelo projétil de um canhão 88, próximo a Paris.[4] Era aproximadamente 9:20 da manhã e o tempo estava magnífico. O projétil acertou diretamente o nariz do avião e, dali em diante, a cena seria de horror. O nariz de plexiglass foi para os ares e, junto com ele, partes importantes da mecânica do avião. Além disso, é no nariz que se encontravam o bombardeador, onde com sua mira Norden poderia localizar com mais precisão o alvo, e o navegador, que de sua mesa controlava todo o trajeto do avião e era responsável pela economia de combustível e rotas aéreas em caso de emergência.

A força da explosão arrancou uma das pernas do bombardeador, Ten.. Maata, além de feri-lo na outra perna e nos braços. A barragem de artilharia continuava e o avião tremia terrivelmente por conta do ar que entrava pelo buraco aberto no nariz. O navegador, diante de tal cena de horror, pulou pelo buraco aberto no nariz da fortaleza. Enquanto isso, o Ten.Becker , através do intercom, verificava se o resto da tripulação estava bem enquanto segurava firmemente o manche da aeronave na tentativa de mantê-la sob controle. Poucos segundos depois também o artilheiro da cauda pulava do avião, Sgt. Simoncini.[5]

Becker virou a direita, por ordem do avião líder, para poder se livrar do FLAK. A barragem estava tão forte que dois motores foram também atingidos e estavam fora de operação. A vibração do avião aumentou muito por conta disso, mas a ordem de saltar ainda não havia sido dada pelo piloto. Cabia a ele decidir o melhor momento para a tripulação abandonar o B-17.

No cockpit a situação não era menos tensa: todos os instrumentos deixaram de funcionar, com exceção do medidor de altitude, que ainda indicava uma altitude superior a 17 mil pés. Com dois motores a menos e um buraco enorme na fuselagem, o Lil Satan vinha perdendo altitude rapidamente. Pelo intercom Becker contatou todos os tripulantes e decidiu por tentar levar a fortaleza de volta à Inglaterra como a única forma de poder salvar a vida do bombardeador, Ten. Maatta. Esta situação mostra muito bem como estes homens eram ligados por laços de grande amizade e fraternidade.

O Major Andrews, com ajuda de outro artilheiro, Brittain, conseguiu trazer o bombardeador mais para dentro do avião para mantê-lo aquecido, pois o frio que entrava pelo nariz era tenebroso. Os primeiros socorros iniciaram: uma dose de morfina foi dada a Maatta e um torniquete foi feito acima do local onde sua perna foi arrancada pelo impacto inicial. Ao lado, imagem do Ten. Maatta.

O Canal já podia ser visto a frente; o tempo, instantaneamente, mudou sobre o Canal e a fortaleza começou a perder altitude. Com apenas dois motores e sem instrumentos, a força de vontade com que o piloto Becker e seu co-piloto, Ten. Rawls lutavam para controlar o Lil Satan eram inacreditáveis. A alta concentração de nuvens fez com que os pilotos optassem por descer a altitude mais baixa e a visibilidade da costa britânica era menos do que o ideal. O radio operador, Sgt. Smith começou a enviar sinais de radio indicando a posição do Satan sobre os primeiros quilômetros do território inglês. O rádio também havia sido danificado pelo FLAK e não recebia sinais.

O Ten.Becker (imagem ao lado) estava firme na proposição de retornar a sua base. Mas este sonho estava ficando cada vez mais longe. Junto com o co-piloto, escolheram uma base da RAF, a primeira no mapa, a cerca de 15 quilômetros da costa como ponto de aterrissagem. A preocupação agora era outra: como aterrissar, pois sem o sistema hidráulico o avião estava sem freios, os flaps poderiam ou não funcionar e não se sabia se os trens de pouso baixariam ou não. Na primeira tentativa os flaps funcionaram e parte do trem de pouso também; mas este enguiçou e o engenheiro de vôo, Sgt. Brittain se pôs a descê-los manualmente. Aproximando-se da pista todos se puseram a rezar; aquela missão com certeza nenhum deles jamais esqueceria.

O Lil Satan se aproxima da pista e desce, em uma aterrissagem fenomenal. Mesmo com um dos pneus do trem de pouso danificado pelo FLAK, o avião parou ao final da pista de pouso. Luminosos vermelhos foram lançados pelos tripulantes, indicando que havia feridos a bordo do B-17. Ambulâncias da RAF não tardaram a aparecer, mas o bombardeador, Ten. Maatta não sobreviveu a perda de sangue decorrente dos ferimentos do impacto do 88.

As informações ainda eram incompletas: não se sabia noticia do Ten. Evans e do Sgt. Simoncini que haviam pulado do Lil Satan naquela manhã. A noticia, trazida pela Cruz Vermelha em 14 de setembro de 44 indicava que Evans estava morto e foi enterrado em um cemitério na França, pelos alemães. A informação veio do Dulag Luft em 2 de setembro de 44 e indicava que o corpo de Evans havia sido encontrado ainda em 25 de junho depois das 11 horas da manhã, já morto. Não existem detalhes sobre a causa e as circunstâncias da sua morte. O Major a bordo reportou que, na hora em que foram atingidos pelo FLAK que arrancou o nariz do avião, o Ten Evans tinha sangue em seus braços. Joseph Simoncini foi feito prisioneiro no mesmo dia e levado também para o Dulag Luft, um campo de triagem para os aviadores presos pelos alemães.

Pela próprio relato de Becker, manuscrito e anexado ao MACR, ao saber que o Ten. Maatta estava gravemente ferio, ele decidiu, junto com Rawls, tentar retornar a Inglaterra. Anunciou sua decisão no INTERCOM aos tripulantes e deu-lhes a opção: quem quisesse poderia abandonar o avião. O navegador, Ten Evans e Sgt. Simoncini optaram por abandonar o avião e pularam. O resto da tripulação permaneceu a bordo do Lil Satan.[6]

O Lil Satan permaneceu cerca de 3 semanas em reparos. Ele perdeu a sua nose art e foi batizado, posteriormente, de Queen O’Hearts. Mas sempre ficou conhecido como Lil Satan e era considerado um avião azarado por conta de sua história.[7] Superstições a parte, o Lil Satan ou Queen O’Hearts foi abatido sobre a Alemanha em 28 de setembro de 1944. Neste dia a tripulação que ele carregava não era mais a do Ten. Becker; mas os homens que lá estavam também conheceram a morte de perto. Com exceção do piloto e do navegador que morreram, todos os outros tripulantes foram feitos prisioneiros de guerra. Com os motores da asa direita em chamas e perdendo altitude, a tripulação abandonou o Lil Satan por volta das 11:30 da manhã no entorno da cidade de Magdeburg na Alemanha.[8]

Da primeira vez em que foi atingido, o Lil Satan pode garantir a segurança dos seus tripulantes e leva-los de volta para a Inglaterra. Mas não resistiu a destruição ao ser atingido pela segunda vez e seguiu seu destino: provavelmente o Lil Satan explodiu ao se chocar contra o solo alemão.


[1] National Archives USA - NARA. Cópia na coleção de Fernanda Nascimento. Imagem inédita.
[2] National Archives USA - NARA. Cópia na coleção de Fernanda Nascimento. Imagem inédita.
[3] Pesquisa no banco de dados do site http://www.8thairforce.com/
[4] Mission Narrative em: 379th Bombardment Group Anthology, Volume 2 por Turner Publishing Company p. 221
[5] Missing Air Crew Report MACR 6738, Publication Number: M1380, National Archives, USA.
[6] Missing Air Crew Report MACR 6738, Publication Number: M1380, National Archives, USA.
[7] http://www.geocities.com/missy092869/planes.htm James E. Rung Navegador que fez 9 missões no Lil Satan depois que foi restaurado. O conhecia como Queen Queen O' Hearts
[8] Missing Air Crew Report MACR 9634, Publication Number: M1380, National Archives, USA.


VEJA TAMBÉM:

>> Raid sobre Schweinfurt: A saga da tripulação do Ten. Wheeler – PARTE 1

>> Raid sobre Schweinfurt: A saga da tripulação do Ten. Wheeler – PARTE 2

>> SKY TRAMP: um bombardeiro pesado no Pacífico.

>> O B-24 Bad Girl e o projeto Azon

5 comentários:

ismael disse...

Muito bom! um grande relato

Fernanda de S. Nascimento disse...

Valeu Ismael!

adriano lima morais disse...

Ola meu nome e adriano do tática de armas,sou blog e nota mil,parabens euma verdadeira aula de historia militar e guerra,espero que continui assim um abraço,eu tanbem tenho um blog gostaria que você desse uma ohadoinha e comentasse,o nome e Taticas de Armas,valeu.

Rodrigo disse...

Estou atrasado no comentário. Mas achei a matéria tremendamente emocionante.

Evandro Moreira dos Santos disse...

Gostei do relato, muito bom.