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Memórias do Front: A Travessia do Rio Waal – Assalto Anfíbio na Market Garden – Parte 1

O objetivo deste blog é resgatar, através de artigos, histórias de pessoas que se envolveram no maior conflito da História - A Segunda Guerra Mundial - e que permaneceram anônimas ao longo destes 63 anos. O passo inicial de todo artigo publicado é um item de minha coleção, sobretudo do acervo iconográfico, a qual mantenho em pesquisa e atualização. Os textos originados são inéditos bem como a pesquisa que empreendo sobre cada imagem para elucidar a participação destes indivíduos na Guerra.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A Travessia do Rio Waal – Assalto Anfíbio na Market Garden – Parte 1

Eram exatamente duas e meia da tarde de uma quarta feira. Os soldados já estavam nervosos no clarão aberto à beira do rio Waal e só faziam conversar e fumar enquanto ouviam o rumor da batalha ao longe. Sua espera era culpa do atraso dos caminhões da coluna de blindados do XXX Corpo britânico. Todos haviam prometido os barcos até as 13:00, mas a esta altura, o assalto anfíbio já havia sido adiado duas vezes e marcado para as 15:00.[1]

Cerca de um minuto depois aviões Hawker Typhoon britânicos iniciaram um bombardeio da margem norte do rio Waal. Alguns minutos depois os tanques e a artilharia que estavam ali, próximos aos soldados, iniciam sua barragem de fogo contra a margem norte, a fim de sustentar o assalto anfíbio que os soldados do Regimento de Infantaria 504º da 82ª divisão aeroterrestre americana iriam realizar.

Era uma quarta feira, dia 20 de setembro. O local era a cidade de Nijmegen, a beira do rio Waal e cerca de 1600m a jusante da ponte ferroviária que atravessava o rio. Embora o ataque da artilharia e dos tanques houvesse iniciado, os barcos do corpo de engenheiros do XXX Corpo ainda não haviam chegado. Mas como que, a pedido provavelmente das preces do Major Julian Cook - comandante do 3º Batalhão do 504º e responsável pela travessia - à 15 minutos para o horário planejado os barcos chegaram. E os engenheiros se puseram a montá-los. Este assalto improvisado fazia agora parte da operação Market Garden que havia sido lançada três dias antes, em um belo domingo ensolarado.

Em setembro de 1944 os aliados haviam progredido muito mais que o planejado na libertação da França. Nos meses que antecederam o Dia D o comando aliado fez uma série de planejamentos a fim de prever a velocidade do avanço pela França ocupada levando em consideração a resistência alemã e a possibilidade de manter as tropas supridas apenas pelas praias da Normandia. A conta levava em consideração a necessidade de se tomar os portos de Calais e Antuérpia para que a linha de suprimentos não ficasse por demais estendida e prejudicasse o avanço pela França em direção a fronteira da Alemanha e ao término da guerra.

O fato é que, em setembro de 1944, desde o porto de Cherbourg até a mais avançada linha a distância a percorrer era de 720km.[2] Os exércitos aliados haviam cruzado mais de 480km desde do Dia D. Isso significava que as topas, principalmente o 3º Exército blindado de Patton, estavam a pouco mais de 200km da fronteira alemã. As perspectivas pareciam surreais aos aliados: se mantido o rumo de avanço e de baixa resistência alemã, talvez a guerra pudesse terminar antes do natal de 1944.

Nos primeiros dias do mês de setembro os ingleses haviam tomado o porto da Antuérpia. Mas os alemães ainda controlavam o acesso ao porto e as ilhas ao redor com grande concentração de artilharia que impedia ao avanço das tropas inglesas. Além disso, extasiados pelo intenso combate sem parar desde o dia D, as tropas inglesas paravam agora no porto. Os generais tinham consciência de que elas não mais suportariam a batalha. Houve, portanto, uma pequena pausa no avanço deste fronte, comandado por Montgomery.

Por outro lado, o avanço do exército blindado de Patton passou a ser dificultado pela falta de suprimentos, dada a morosidade da linha. O Gen. Eisenhower, por sua vez, recebia desde julho pedidos e planos de Montgomery para que a prioridade de avanço fosse dado a seu exército, que poderia entrar através do Ruhr, furar a linha Sigfried e levar a guerra ao quintal da Alemanha. Patton, por sua vez, insistia em um avanço através do Sarre e dali ao centro da Alemanha. Os pedidos de Montgomery haviam sido tão insistentes, que em reunião com Einsehower em 23 de agosto, o supremo comandante o cortou de vez. Ike – carinhoso apelido de Einsenhower - insistia em um avanço rápido, mas coeso de toda a linha de frente, enquanto Monty gritava que o avanço deveria ser por uma única linha, rápido e rasteiro, até o coração industrial da Alemanha, o Ruhr.

Mas no inicio de setembro de 1944 o Marechal de Campo Montgomery traçou um audacioso plano de ataque à Holanda com o objetivo de furar a fronteira com a Alemanha. Este plano ia de encontro ao anseio do Comando Aliado: utilizar suas bem-treinadas e equipadas tropas pára-quedistas estacionadas desde o final do mês de junho, após severos combates na campanha do Dia D, na Inglaterra.

Estas tropas já haviam recebido instrução para, no mínimo, meia dúzia de operações aerotransportadas desde que tinham voltado à Inglaterra. Todas foram canceladas pelo mesmo motivo: a rapidez de movimento na França fazia com que os objetivos dos aerotransportados fossem alcançados pelas próprias tropas em terra. O plano de Montgomery previa a utilização do I Exército Aerotransportado Aliado, que compreendia as divisões americanas 101ª e 82ª , além da 1ª Brigada Pára-quedista Polonesa, a 1ª Divisão pára-quedista Inglesa e a 52ª Escocesa.[3] A Operação recebeu o nome de Market – Garden e o objetivo era assegurar a passagem da coluna blindada do XXX Corpo Britânico através de uma estrada única na Holanda que ligava as cidades de Eindhoven – Son – Veghel – Grave – Nijmegen – Arnhem. Com a conquista de Arnhem, o caminho estaria aberto para a entrada no Ruhr. O audaz plano impressionou até Einsenhower. E Montgomery conseguiu a autorização para dar inicio a operação. Era dia 10 de setembro.

Após a comunicação de todos os oficiais de unidades envolvidos a data para o assalto aeroterrestre foi marcada: Domingo, 17 de setembro. Às 10 horas da manhã as tropas de pára-quedistas e planadores saíram de 24 aeroportos na Inglaterra em direção à Holanda. Estas tropas reuniam a elite do exército americano e inglês. Representavam, em seu total, aproximadamente 35 mil homens. E entrariam para a história como o maior assalto aerotransportado já realizado. Em território holandês, ao final do dia 17, mais de 20 mil homens estariam efetuando o avanço aliado. O restante da tropa, por falta de aviões de transporte, seriam lançados sobre a Holanda no dia 18 e no dia 19. A foto no início deste artigo mostra pára-quedistas dentro de um avião de transporte C-47 em direção à Holanda. Em primeiro plano, um capitão e um tenente podem ser vistos.[4]

As divisões haviam sido divididas em três objetivos específicos: a 101ª deveria tomar o setor ao redor de Eindhoven e as pontes antes e ao redor da cidade; a 82ª ficaria responsável pelo setor ao redor de Nijmegen, além de garantir a posse de quatro pontes, entre elas a ponte rodoviária de Nijmegen sobre o rio Waal; e as divisões britânica e polonesa, que deveriam guardar a ponte de Arnhem até a chegada da coluna blindada, liderada pelo Gen. Horrocks. A ponte de Arnhem garantira o acesso ao Reno e, possivelmente, ao Ruhr. O mapa abaixo exemplifica o plano.[5]

O complexo plano dependia de uma variável e complexa rede de acontecimentos positivos a favor dos aliados. E de forma alguma eles foram entusiasticamente positivos. O planejamento deu conta de que a coluna blindada do XXX Corpo chegaria em 48 horas a ponte de Arnhem. Os pára-quedistas da 1ª Divisão britânica, os Red Devils, deveriam suportar por, no mínimo, 48 horas no lado norte da ponte. A coluna blindada entraria em território holandês, auxiliada por forte barragem de artilharia e pelos caças Typhoon em torno das 14 horas do dia 17. Este era o horário planejado para o desembarque dos pára-quedistas em suas zonas de salto. Seguindo o raciocínio de Montgomery e o planejamento de seu Estado Maior, em horas a coluna blindada deveria se reunir com as tropas da 101ª em Eindhoven. Mas isto não aconteceu.

A entrada da coluna blindada no território holandês já foi caótica: em alguns minutos, dada a resistência alemã, 9 tanques já estavam em chamas, causando um congestionamento de 800m na única estrada necessária para o avanço dos blindados. Com o avanço britânico palmo a palmo, elementos da 9ª Divisão Panzer – Hohenstaufen -, da 10ª Panzer – Frundsberg -, do 15º Exército do Gen. Von Zangen e pára-quedistas eram feitos presos. A variedade de tropas e sua origem estava deixando o serviço de informação inglês louco. Não se reconhecia a presença de nenhuma destas unidades na Holanda.[6]

A Holanda, no início do mês de setembro, passou a formar um corredor de fuga das tropas e dos alemães nazistas que vinham fugidos das terras ocupadas dia a dia pelo avanço dos aliados, sobretudo na Bélgica e n França. Estas pessoas estavam a caminho da Alemanha, onde acreditavam estar seguros. O exército alemão, no meio deste auê, estava totalmente desorganizado. Hitler, de seu abrigo em Ratensburg, continuava a planejar um contra-ataque de peso contra os aliados com as suas divisões que existiam apenas no papel. A fim de organizar a confusão instalada, ordenou ao Marechal de Campo Von Rundsted que assumisse o comando da Frente Ocidental. Sua missão era impedir o avanço aliado, a fim de atrasá-lo até o inverno, para que o exército alemão pudesse se preparar e se reorganizar para m ataque. Ao chegar a Holanda, Von Rundsted teve o desafio de reunir o que restava de divisões destroçadas e colocá-las em forma. Era esperado um ataque a Holanda. Só não se sabia como.

Neste ínterim, o serviço de informações britânico desconhecia o avanço através da Holanda, da 9ª e 10ª Divisões Panzer que combatiam na França praticamente desde o dia D. Estas divisões estavam sofrendo com a falta de suprimentos e material humano e se retiraram as pressas a Holanda a fim de reorganizar. Além disso, a parada no avanço da ofensiva sobre a Antuérpia permitiu que o Gen. Von Zagen retirasse suas tropas pelas ilhas não ocupadas, em direção a Holanda. A brava e impressionante retirada de Von Zagen rendeu um efetivo de mais de 60 mil homens em território holandês, além de equipamento.

Desta forma, o inesperado avanço alemão deixou a Holanda com quatro Quartéis Generais: O QG de Von Rundsted, comandante da Frente Ocidental, o QG do marechal de Campo William Model, comandante do Grupo de Exércitos B, o QG do II Corpo Panzer sob comando do Obergruppenfüher Wilhem Bittrich e o Gen. Von Zagen, comandante do 15º Exército. Os aliados desconheciam a presença da maior parte destes oficiais na Holanda. Mais ainda: desconhecia que Bittrich e suas duas divisões Panzer estavam agrupadas, em sua maioria, nas cercanias de Arnhem.

Ao saírem da Inglaterra, os soldados do regimento 504º, especialmente das companhias I e H, não poderiam imaginar que dali a três dias estariam atravessando um rio remando sob intenso fogo de metralhadoras e artilharia. E que suas baixas seriam enormes.



[1] WILLIANS, Capt. Robert K. Report of Action, 307 A/B Engr. Bn, to Commanding General, 82nd Airborne Division, 25 September 1944. Retirado do livro YOUNG, Col. Charles H. Into The Valley, The Untold Story of USAAF Troop Carrier in World War II, From North Africa Through Europe. Edição do autor, 1995. Publicado no site http://www.usaaftroopcarrier.com/Holland/H-Waal%20River%20Crossing.htm.
[2] RYAN, Cornelius. Uma Ponte Longe Demais. BIBLIEX: Rio de Janeiro, 1978. p. 63
[3] O I Exército Aerotransportado Aliado era composto das divisões numerada mais a 17a Divisão de paraquedistas Americana e a 6a Divisão de para-quedistas Inglesa. Para a Market Garden estas divisões não foram escaladas. Era comandada pelo General Lewis H. Brereton. AMBROSE, Stephen. Band Of Brothers. Companhia de Heroís. BERTRAND: Rio de Janeiro, 2004. p. 138
[4] National Archives USA - NARA. Cópia na coleção de Fernanda Nascimento. Imagem inédita.
[5] Mapa retirado do livro de RYAN, Cornelius. op. cit. p. 85-86.
[6] RYAN, Cornelius. op. cit. p. 193.

11 comentários:

le avieteur disse...

mais uma vez um excelente trabalho, parabéns

antonio disse...

Prezada Fernanda, boa-noite
Por favor confere a informação quanto a Red Devils. É que salvo engano Red Devils era a 101 Divisão
Pára-quedista Americana.
Outra coisa em Üma Ponte Longe demais, o autor não fala, salvo engano, em mais do que 1 Divisão inglesa, cujo comandante era Gen Urquart e ainda salvo engano em 1 Regimento polonês

le avieteur disse...

caro antonio os Red Devils são os pqds ingleses, a 101 é conhecida como screem eagle.

Fernanda de S. Nascimento disse...

Antonio! Muito obrigada por seu comentário. O colega Le Avieteur tem razão: os RED DEVILS são os paraquedistas da 1a divisão aerotrasportada inglesa. Em ação desde a África, eram conhecidos pelo seu orgulho e tenacidade em combate. Os da 101o Airborne eram conhecidos como "Screaming Eagles" justamente pelo desenho adotado em seu patch, usado no ombro esquerdo. Quanto as divisões, eu me fiz mal entender: o 1o Exército Aliado Aerotransportado era composto das divisões que enumerei no artigo + a 17 americana. Para a Market Garden tanto a 17 americana quanto a 6 inglesa foram dispensadas. Mas a 52a Escocesa, sob o comando do General E. Hakewell-Smith e a Brigada Polonesa, sob comando do General Stanisław Sosabowski, participaram da operação. Qualquer dúvida é só perguntar!
Abraços,
Fernanda

Fernanda de S. Nascimento disse...

Le Avieteur, muito obrigada mais uma vez pelo sincero comentário!

Abraços,
Fernada

Vag disse...

Hey Fer! Finalmente to visitando teu blog, lembrei de ti hoje que provavelmente veremos sobre 2ª GM na aula de Fundamentos da História Geral, to adorando os textos, extremamente ricos em informações e detalhes, o que era de se esperar de ti =) continue sempre assim guria!

Saudades...

=***

Fernanda de S. Nascimento disse...

Vag! Obrigada pela visita e comentário! Pois é, se precisar de uma ajudinha sobre história, é só pedir! E quando sai a formatura, hein?? Saudades mesmo! Precisas dar uma passadinha aqui em POA! Um grande abraço!

manoel disse...

Fernanda parabéns pelo blog, eu achei ótimo e digo mais minha matéria preferida na escola é história, e eu aprecio esta sua iniciativa em colocar esse blog no ar e mostrar que as mulheres também se interessam pela história das guerras,pois se tem uma frase que eu gosto é essa " Os homens não ganham uma guerra pelo que eles vêem no campo de batalha, e sim pelo que eles vêem quando voltam para casa" ou seja as mulheres são tão guerreiras quanto os homens, e mais adorei conhecer um moça tão linda,inteligente e de bom gosto como você, só não lhe peço em casamento por que acho que você já deve ser casada...

Fernanda de S. Nascimento disse...

Manoel, muito obrigada! O blog tem se tornado meu grande prazer ao explorar e pesquisar episódios e ações pessoais na guerra. Muito do que está escrito aqui não tem paralelo na lingua portuguesa. É portanto uma ótima fonte de pesquisa para aqueles que curtem o assunto! Continue acessando e divulgando o blog! Um abraço!

PqdtRicardoFREIRE disse...

Cara Fernanda, acompanhando o seu interesse por assuntos militares. Temos aqui em Porto Alegre, um seleto grupo de Veteranos Pára-quedistas do Exército Brasileiro.De Soldados a Generais, ex-militares que tiveram a honra de Servirem na nossa Brigada de Infantaria Pqdt. Temos um ícone em POA, um militar que em 1950, após a morte de algums jovens pára-quedistas, criou um pino de segurança para o gancho da fita de abertura do pára-quedas T7, e hoje é utilizada no mundo todo e seu nome técnico é conhecido como Chipanique, oriundo do seu nome polaco SCEPANIUK, nosso Pioneiro Pqdt, que junto com 47 outros militares fizeram o Curso Básico em Fort Benning, na Geórgia. Se tiveres interesse de conhecer este tipo de história mais "nacional", entre em contato comigo. Saudações aeroterrestres. Pqdt 30346 Ricardo FREIRE

Anônimo disse...

Olá! Ja li muito sobre a 2 GM e esta briga entre Monty e os Generais americanos é sempre descrita de uma forma ou de outra. Patton é um dos que mais é citado. Em livros escritos por autores não americanos descrevem Monty como um General com muito carisma entre os seus comandados ingleses que o adoravam. Mas nos filmes como Um Ponte Longe Demais - autoria americana - ou o Resgate do Soldado Ryn - tambem norte americana - e até mesmo a serie Band of Brothes Monty não é levado a sério. Ai esta um bom assunto para ser desenvolvido que eu pessoalmente não ouvi ou li até hoje - a briga entre Monty e os Generais Americanos, o que tem de ciumes, o que te verdade mas escrita por uma pessoa que não seja Inglesa nem Norte Americana, O que tu acha Fernanda.
Obs: Parabens pelo texto que no filme Uma Ponte Longe Demais tem uma das cenas mais dramaticas mostrando o oficial rezando enquanto rema para chegar na outra margem.
email : gebertaia@terra.com.br
Nome Geber